A morte do significado e o inferno do igual
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Não é de hoje que me pergunto o porquê das coisas.
Eu era aquela criança que desmontava telefones fixos para descobrir quem morava lá dentro. A curiosidade era simples. Eu queria saber como o humano se relacionava com a máquina.
Cresci com essa inquietação ressignificada. Frequentando grandes eventos de tecnologia, vejo palcos iluminados e ouço discursos apaixonados sobre funcionalidades, escalabilidade e eficiência. Soluções são aplaudidas. Mas, em meio ao barulho, uma pergunta silenciosa sempre me persegue.
O entendimento sobre as pessoas também está evoluindo?
Vejo muito debate sobre a ferramenta de automação, mas quase nada sobre quem vai ler a mensagem. Celebramos a eficiência do disparo em massa, mas ignoramos se aquele conteúdo vai, de fato, mudar o dia de alguém para melhor.
Essa lacuna não é apenas um detalhe técnico. É o sintoma de uma crise de sentido.
A sobrecarga de informação deixou de ser uma hipótese para se tornar uma realidade. Chama-se isso de ansiedade informacional, um estresse crônico gerado pela tentativa (inútil) de acompanhar tudo.
Para entender como chegamos a esse ponto de saturação, precisamos olhar para três forças que convergiram para criar este momento complexo.
As 3 forças convergentes que minaram a atenção
1. A democratização da comunicação
O acesso livre às ferramentas de comunicação permite que qualquer pessoa com um smartphone seja, sozinha, uma plataforma de mídia capaz de distribuir conteúdo a custo “zero”.
Isso é um avanço extremamente positivo. Vozes antes silenciadas agora podem ser ouvidas. O efeito colateral, no entanto, é o próprio excesso. Quando todos falam, muito e ao mesmo tempo, o ruído do ambiente se torna um desafio adicional, além do esforço que já teríamos que empregar na compreensão do conteúdo em si.
2. A revolução da I.A. Generativa
Tecnologias como ChatGPT, Gemini e centenas de outras resolvem em minutos o que antes exigia equipes e dias de trabalho, com o domínio de comandos bem feitos.
Isso traz eficiência, sem dúvida, mas também nos afoga em um oceano de conteúdo raso. Estamos criando um ciclo onde textos gerados automaticamente viram referência para outros textos futuros, alimentando uma mediocridade em escala industrial.
E a baixa qualidade pode não ser o maior problema, se considerarmos pela perspectiva que as I.A.s têm suas alucinações que, sem compromisso com a veracidade, podem propagar invenções que serão igualmente replicadas e perpetuadas.
3. A fragmentação da realidade
Por último, e talvez o mais perigoso, temos o algoritmo. As redes sociais ficaram sofisticadas em nos mostrar apenas o que reforça nossas visões preexistentes. O objetivo não é informar, é manter o engajamento através do viés de confirmação.
O resultado é que perdemos o chão comum da realidade. O fato foi tão modificado pelo viés que o diálogo se torna impossível. Cada um vive em sua própria versão da verdade, recortada convenientemente para não causar desconforto.
Isso explica nossa atual incapacidade de argumentar sem cair imediatamente no ataque ou na defesa. O objetivo do debate deixou de ser a construção conjunta para se tornar a pura e simples eliminação do oponente.
O Inferno do Igual
Essas três forças criaram o que o filósofo Byung-Chul Han chama de Inferno do Igual.
É a monotonia de uma sociedade onde tudo é apresentado com a mesma urgência e a mesma estética. A distinção entre o profundo e o trivial colapsa. O posicionamento é utilizado não para reforçar o que há de único, mas para maquiar a possível falta de coragem e competência.
Para as marcas e empresas, o cenário é crítico. A atenção é o recurso mais escasso da economia, mas a maioria de nós tenta capturá-la gritando mais alto. Bombardear consumidores apenas com mais mensagens e maior frequência não constrói conexão. Quando não faz sentido, isso destrói valor tangível e intangível.
A estratégia da relevância
Diante do Inferno do Igual, a verdadeira diferenciação não virá de quem tiver o megafone mais potente ou a automação mais rápida. A batalha por atenção baseada em volume já foi perdida para as máquinas.
A única fronteira que resta é a do significado.
Ser relevante, neste contexto, deixa de ser uma métrica de vaidade para se tornar uma condição de sobrevivência. Significa entender que a atenção do outro é um recurso finito e sagrado. Quando alguém escolhe parar o que está fazendo para ler o que você escreveu, essa pessoa está te entregando o tempo de vida dela. Desperdiçar isso com conteúdo raso ou gerado sem critério é um desrespeito que o mercado não perdoa mais.
Precisamos recalibrar a comunicação. Celebrar a tecnologia e investir na eficiência, mas entender o que está além dos números. Cada e-mail enviado, cada postagem feita e cada campanha lançada carrega uma escolha estratégica binária: você está contribuindo para o lixo digital ou está construindo um ativo de confiança?
Você está convertendo hoje, mas está construindo a base sólida necessária para continuar vendendo amanhã?
Apesar da sofisticação dos algoritmos e da onipresença das IAs, nossa biologia permanece inalterada. Continuamos sendo criaturas que buscam desesperadamente por pertencimento, conexão e propósito. A tecnologia pode simular a conversa, mas nunca simulará o sentido.
Em um mundo que aprendeu a gritar cada vez mais alto, a atitude mais revolucionária e estratégica que você pode tomar hoje é baixar o tom, sair do automático e garantir que, antes de falar, você tenha algo que realmente mereça ser ouvido.
No escritório do meu saudoso avô havia algumas frases que me marcaram para a vida. Uma delas foi:
Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores do que o silêncio.
Em meio ao caos, precisamos procurar ouvir o que faz sentido.
Espero que faça sentido para você.
Nos vemos em breve! 🙂



Excelente. Tudo bem explicado. É uma pena que estamos sendo soterrados com tantos absurdos.
A frase do seu avô diz tudo.
Excelente texto Felipe, uma reflexão fundamental sobre o que estamos vivendo.